quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTREVISTA

AMÉLIA LUZ – Pirapetinga, MG.
480 – 2 de MARÇO de 2013.

Amélia Luz – Pirapetinga/MG – Escreve contos, crônicas e poesias com várias premiações. É formada em Pedagogia – Administração Escolar e Magistério – Orientação Educacional – Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa, Pós graduada em Planejamento Educacional e Psicopedagogia na Escola.

É Membro Efetivo da APLAC – Academia Paduana de Letras, Artes e Ciências/Sto. Ant. de Pádua/RJ, Membro Correspondente da Academia Rio – Cidade Maravilhosa – Rio de Janeiro, Membro da Academia Cachoeirense de Letras – Cachoeiro de Itapemirim/ES, Membro Correspondente da Academia de Letras Brasil – Mariana e InBrasCi/MG, Membro Correspondente da Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni – Petrópolis/RJ, Membro Correspondente da Academia Friburguense de Letras – Nova Friburgo/RJ, Membro da Academia Ferroviária de Letras – Rio de Janeiro, Membre du Cercle Universel des Ambassadeurs dela Paix– Geneve/Suisse, Membre de L’Academie du Mérite et Dévouement Français – Paris/França e outras entidades literárias. Participa de muitas antologias com premiações em vários concursos literários no Brasil, Portugal, Espanha, Itália e França. Tem um livro solo “Pousos e decolagens” e outros em construção.
SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?
AMÉLIA LUZ – Hoje, aposentada dedico-me a cuidar da família, sobretudo minha mãe, 95 anos, vítima de Alzheimer há dez anos. É um bebê que precisa de todos os meus cuidados. Sou a única cuidadora: missão de Deus.
Depois, a leitura, a pesquisa, o comprometimento diário com a Literatura. Gosto de viajar, assistir a bons filmes e visitar ambientes culturais.
SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?
AMÉLIA LUZ – Desde criança tinha atração pelas letras. Depois a Escola Primária veio despertar ainda mais esse interesse. Era míope e pouco ligada a brincadeiras com a turma. Tinha um vizinho, Sr. Aurélio Tomasco, Coletor Estadual de Minas Gerais que tinha um bom acervo literário.
Era tudo que eu precisava. Ali encontrava um mundo ao alcance dos meus olhos. Da leitura posso dizer eu me fiz pessoa!
SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados?
AMÉLIA LUZ - Tenho um livro de poesias publicado ” Pousos e Decolagens”. Prefiro publicar em antologias que eu creio estar perto de mais de uma centena de publicações. Assim, eu trago e divulgo muitos escritores e eles também levam os meus trabalhos para lugares distantes e me divulgam.
Sempre sou surpreendida por uma observação de alguém que leu o meu trabalho.
Faço amigos, participo de lançamentos e me farto de alegrias nesse saudável ambiente onde aprendo muito. Tenho publicações em vários estados do Brasil, Portugal, Espanha, Itália, França e este anos terei em Angola, Bélgica e no Chile.
SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias?
AMÉLIA LUZ – Uma imagem, um som, um pensamento, uma lembrança, uma pa-la-vra!!! A palavra é mágica e desencadeia emoções que me levam a produzir o texto. Um caderninho de anotações, uma perdida folhinha de papel, um guardanapo ou quem sabe até mesmo o notebook. Assim apanho os versos na palma das mãos.
O silêncio da noite me comove e me deixa em “estado de graça poética”.
Puxo o fio de Ariadne… Quem sou??? Nem sei!!! Perdi-me dentro de mim para encontrar a poesia. É indescritível viver isso com tamanha intensidade. Tudo vem de dentro para fora em jactância.
SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?
AMÉLIA LUZ - Como citá-los se são tantos??? Deixo então o meu Mestre Maior o João Guimarães Rosa e também o meu poeta conterrâneo, mineiro que enxerga por cima das montanhas, Carlos Drummond de Andrade.
SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?
AMÉLIA LUZ - O verdadeiro poeta não precisa de incentivo. A poesia por si mesmo irá incentivá-lo! Depois que tomar verdadeiramente o caminho dos versos já não haverá retorno. Embriagado de metáforas seguirá cambaleante em busca do reino encantado onde vivem os poetas. A leitura é a fonte de água viva que precisará sempre.
AMAZÔNIA
Amélia Luz
O tropel do homem assustou a floresta!
A ambição cruel campeou pela mata
fazendo dela o túmulo frio da terra-mãe!
O poeta gritou em trovão por Tupã
que na sua ira de deus,
incendiou com um relâmpago
os olhos cegos que dormiam…
Quero ver salva e protegida
minha Amazônia querida,
patrimônio universal,
útero da natureza,
com toda a sua riqueza!
Relíquia ameaçada
pelas serras sanguinárias
que se embriagam de seiva pura,
ao gemido de árvores milenares…
Vejo neste santuário sagrado
a agonia ambiental de um planeta doente
vítima da violência insana
do desmatamento inconsequente.
Soluço um pranto rouco
clamando pela preservação!
Ao homem louco do meu tempo
deixo um manifesto.
Que lute com peito aberto, como protesto,
antes que seja tarde e tudo se perca!
*****
E por Falar em Maria
Amélia Luz
Maria Rosa
Maria prosa
Maria fogosa
Maria manhosa
Maria Flor.
Maria do fogo
Maria do jogo
Maria do gozo
Do corpo dengoso,
Tocha viva de amor…
Maria mania
Maria da vida
Maria bandida
Maria da lama
Maria da cama
Maria assanhada
Maria mascarada
Do pandeiro e tamborim,
Sem saber do seu fim…
No Bloco dos Sujos
Sambando, gingando,
Alegria! Alegria!
Tudo é fantasia
Tudo é carnaval!
Maria do choro
Do gole, da fome,
Maria sem nome
Cansada, apagada,
Andando sem rumo
Ardendo em ressaca.
Maria das Cinzas,
De tantas tristezas…
A folia acabou
E você não se tocou
Que o seu nome Maria,
É nome divino
É nome de graça
De santa pureza
De tanta riqueza
De virgem e altar!
*****
FILOSOFANDO
Amélia Luz – Pirapetinga/MG
O vendaval passou pela cabeça do filósofo…
Suas idéias saíram livres, giratórias,
quais folhas de papel ao sabor do vento!
Achadas assim ao acaso foram lidas
conservadas, discutidas, ensinadas,
violentadas, desenvolvidas, repudiadas!
Surpreso, como um servo, voltou ao seu trabalho,
de profundas reflexões esperando novos ventos
que assanhassem novos pensamentos
capazes de arrombar as portas do mundo
através do silêncio misterioso das bibliotecas…
Histórias viajaram para todos os lados
textos invadiram a nossa lucidez
mostrando as misérias da tragédia humana…
O monólogo interior, o questionamento,
ou a questão da vida por si mesma
à procura de novos ângulos que nos permitissem
a explicação da nossa solidão existencial!
Inquietos Aristóteles e Platão dialogavam,
deitados num mesmo divã numa sala de Viena,
tentando desvendar os mistérios da mente humana!
*****
MULHER
Amélia Luz – Pirapetinga/MG
Desato o nó do avental, nada mal,
sou mulher com ideias em vendaval…
Deixo o fogão, a frigideira, a prisão,
saio na contramão fazendo a minha liberdade!
Num grito,num gesto, num manifesto
deixo de lado a casa, o pó, a servidão
sou agora um novo modelo em ascensão.
Utilizo cosméticos sofisticados,
em bom tom sou balzaquiana avançada,
ou ingênua, tímida, provinciana,
mulher doidivana conquistando mundos.
Sou cidadã, cortesã, discreta, concreta,
tenho Brazão de Portugal, sou prima do rei,
tenho até impressão digital.
Como o sexo oposto sou, superior e forte!
Piloto avião com as forças do meu coração,
sou atuante, executiva, participante.
Tomo cerveja, minh’alma sobeja,
divido o pão de mão em mão!
Batalho na linha de frente, posso até ser presidente.
Voto, tenho carta de motorista,
tenho visto em passaporte decidindo a minha sorte.
Assim, voo para o sul, voo também para o norte,
manobro na “gentil pátria amada” em missão partilhada
seguindo a força do meu tempo!
Mulher, afinal, ser ou não ser, querer e poder,
questão, resposta, solução proposta?
Encorajar, viver, criar asas, ser forte como o nascer…
Ser delicada amante, amada, submissão sem algemas,
ser sobretudo, mulher!
*****
Procura
Pseudônimo: Capitu
Procuro o espelho
a imagem-miragem,
o vestido vermelho,
o perfume de malva
e o carmim na pele alva…
Procuro a anágua de renda,
o velho livro de lenda,
o homem de branco,
o rosto, o jogo
e o olhar de fogo!
Procuro a pintura
a enfeitar envelhecidas paredes…
Procuro a canastra de sedas
a preciosa cesta de costuras
o crivo, o matiz, o bordado,
o tempo guardado em retalhos de vida…
E o vestido vermelho,
dependurado, mudo, agora desbotado,
roto, puído, rasgado,
surrado pelos maus tratos da lida,
continua contando histórias perdidas…
Na minha solidão,
procuro o trilho, o caminho,
e a volta ao encantado ninho…
Vejo tuas mãos envelhecidas
ansiosas buscando as minhas,
lembro então teus suaves carinhos…
E a cadeira de balanço, vazia,
continua noite adentro,
embalando os nossos sonhos…




terça-feira, 12 de setembro de 2017

Poema: TRANSCENDÊNCIA - Tema: SETEMBRO AMARELO - MÊS DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO.





TRANSCENDÊNCIA


Amélia Luz

Da morte absurda
Restou a sombra transitória
O desfazer dos dias sombrios
Contagem regressiva
Nas horas terríveis da solidão,
Mistério da erosão interior
Que tanto o atormentava...
Era como um pássaro indefeso
Esmagado nas suas próprias mãos.
Odiado, rejeitado ou amado,
Rompeu com regras impostas,
Escolheu o pomo mais amargo
Escondido em folhagens venenosas.
Vomitou a rotina, sua sina,
Círculo vicioso da depressão
Que o sucumbia em silêncio...
Era como a rês marcada
Esperando a hora para o sacrifício!
Gritou, pediu que lhe ouvissem,
O gemido do seu sofrimento
Mas os ouvidos surdos não foram capazes,
De percebê-lo assim, tão humano!
Descrente, mergulhado nos delírios insanos,
Que o perturbavam amargamente,
Vestiu inconsciente a sua mortalha
Entre os cacos espalhados da sua vida!
Andarilho, não esperou que um vento forte
Viesse atirá-lo ao chão, fruto maturo,
Entre os vermes famintos da terra-pó.
A noite interminável, a coragem, o estampido...
Nem o rascunho da sua triste história
Pode deixar como memória
Pois as palavras mordem como víboras,
Neste purgatório, que vivemos,

De punições e chibatas!



segunda-feira, 14 de agosto de 2017



CENTOPÉIA – MUNDO INFANTIL

Amélia Luz


Se eu pudesse
Parar no F da Fantasia
Virar criança, cair na dança
Embebedar-me de alegria...
Se eu pudesse
Sair por aí sapateando
Seria uma centopéia falante
Cheia de pés pequenininhos...
Só assim, poderia de certo,
Calçar todos os meus sapatinhos!
Um cromo alemão de fivela,
Um par de tamancos  holandês,
Um “scarpin” dourado
Um mocassin confortável
Um sapato de mandarin
Um Luiz XV alinhado
Um  tênis americano, modernizado
Uma elegante sandália italiana
Uma Anabela, uma rasteirinha,
Um sapato fechado, secarrão e calado,
Um bico-fino francês, outro inglês refinado.
Para variar usaria um bate-bute desajeitado
Bem “quadrado”, de esquadrão, de soldado.
Ou uma bota de verniz de cano longo
Uma outra esquisita de alpinista,
Um Chanel estiloso cor de mel
Uma sapatilha cor-de-rosa
Lembrando uma bailarina russa.
Por fim, uma havaiana bem colorida,
Para trilhar as passarelas da vida,
Copacabana, sol e mar, mocidade.
Ah! Como seria legal!
Virar uma centopéia vaidosa,
Sair por aí toda prosa,
Exibindo a minha coleção em cada estação!
Enfim, ao soar das badaladas da meia-noite
Calçar um dia os meus sapatinhos de cristal
Encontrar o meu príncipe encantado
Nas nuvens morar no Reino da Felicidade
Sapateando a canção da liberdade!





domingo, 13 de agosto de 2017

Patrimônio Universal

Amélia Luz










 Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me pesado. Tudo era correr atrás do vento.

Eclesiastes, 2 - 17.



Tudo pelo poder do dinheiro,
o empreendimento, o logro, 
a conquista, a (in)justiça social
ou o pão nosso de cada dia.
A aposta, o prêmio, a loto,
ou o fiel bilhete de jogo de bicho!
Cheques, ordens de pagamento,
bancos, clientes de ouro ou de lata.
Enfrentam-se filas, sorrindo,
se o alvo for o certeiro dinheiro!
Pagar, emprestar, render, poupar,
Sonegar, enganar o leão
ou sair pela contramão,
investimento ou gastando
e até mesmo rasgando dinheiro.
Vive-se dele e por ele. Que agonia!!!
Ser consumista ou ser pão duro eis a questão!
Assinamos ponto, batemos cartão todo dia,
pelo pagamento, pelo dinheiro!
Simpático, cobiçado, centro de discussões e debates,
por ele torres-gêmeas esfarelam
países são bombardeados
impérios são discutidos em ioruba, javanês, chinês
falando-se sempre a mesma língua ianque,
“MONEY...MONEY...MONEY”!
A suposta felicidade vem com ele,
Enterrado no quintal, no baú de tesouros,
no pé de meia ou debaixo do colchão.
A transitoriedade do homem e a durabilidade do dinheiro
na história da humanidade atravessando os séculos...
Os novos valores, os massacres, as guerras,
O mundo em ordinal: países de primeiro, segundo,
terceiro, quarto, quinto mundo, etc. e tal.
Emergente, sobrevivente, 
no comando desse espetáculo global,


ELE, o dinheiro, patrimônio Universal.   



 P'RA DIZER QUE NÃO FALEI DA NARA 


P’RA  DIZER  QUE  NÃO  FALEI  DA  NARA

Amélia Luz – Pirapetinga
Minas Gerais

Falar da Nara, musa-protesto,
Cara a cara com o Brasil Revolução!
Falar da Nara, delicada, reservada,
Ou da Nara Tropicalista do divã do analista!
Falar da sua arte musical
Um verdadeiro festival consagrado...
Um grupo de amigos parceiros,
Um mesmo passo no mesmo laço,
Num só compasso, afinado no mesmo diapasão!
Um canto qualquer escolhido,
De um apê com endereço em Copa
Com vista para o mar azul.
Um drinque, um piano, um violão,
Assim, brotava a canção sem malícia,
Na pura emoção bossanovista...
Enquanto isso, tambores em marcha,
Violentavam em tempos de chumbo.
A ditadura cruel, o medo, a repressão!
“Caminhando e cantando”, seguia amordaçada,
Provando do cálice amargo do fel,
Proibição ideológica do regime militar!
Nara declara em seu recado desafinado
Poderoso discurso social disfarçado,
Composto por profunda inspiração,
Entre partituras, fuzis e escalas:
Seu “Canto Livre”, “Pedindo Passagem”,
Numa ensolarada “Manhã de Liberdade”,
Brada em poesia - DEMOCRACIA -
Ao sopro do “Vento de Maio”
Que vem assanhar os seus pensamentos.
A mão sensível de Nara o verso apara,
Num ritmo estranho, transverso,
Num jeito descontraído dos anos de ouro,
Que perpetua a sua imagem, rico tesouro!

E Vandré com a viola mágica que seduzia
Comandava emoções, entusiasmando a multidão:

“Com a certeza na frente, a história na mão,
 Aprendendo e ensinando uma nova lição,

 Somos todos iguais, somos todos irmãos!”

sexta-feira, 11 de agosto de 2017





O  VELHO ENGENHO


                            O velho engenho gemeu calado. Estremecido nas suas lembranças recordou do seu antigo e primeiro dono, o João Carlos, depois o segundo, o Pedrinho Carlos, depois o terceiro, o seu dono Vermelhão e agora a quarta, a menininha da balança. Pensou com os seus botões quantas mudanças! Ouvia ainda o soco da mão no pilão, o cantarolar das mulheres catadoras de café, o ruído da máquina de beneficiar o arroz em palha. Olhou ao lado viu o terreiro de pedra vazio sem o arrastar dos rodos para a secagem de arroz e café em grãos. E os carros de bois que chegavam cheios até o fueiro cantando a mesma melodia sonolenta. O grito do carreiro, a boiada aparelhada, os braços fortes para o descarrego das mercadorias. Bons tempos...
                            Depois se lembrou de quando ficou por tantos anos vazio e inútil assistindo aos voos rasos dos morcegos, o choramingo dos gatos no cio, as andorinhas que na beirada do telhado que se escondiam para fazer seus ninhos... Hoje elas estão lá, de ferro, lindas, mas não fazem alarido nem têm filhotes para alimentar e fazer bagunça.
                          Pensou no cheiro da comida da Anna, nas crises de asma do Amerco, (do cheiro ativo do seu cigarro feito de uma planta fedida chamada trombeta, para aplacar as suas crises), do pigarrear do Joaquim ouvindo a Rádio Aparecida ao cair da noite e das prosas longas do Seu Bertolino e do Sebastião Luz nas tardes de verão.
                           E o seu dono Vermelhão, cheio de infantilidades contando as suas lorotas ou brigando feio com o irmão que insistia em administrar tudo com responsabilidade? Onde estará? Como estará?
                          Recordou também dos casos de amor clandestino que ali presenciara. Coisas dos seus donos e que ele como bom confidente não revelou pra ninguém. Era fiel e não gostava de conversa boba. E a sua dona, a Dama de Preto? Silenciosa, observadora, sofredora das amarguras da vida... Encantou-se e partiu para sempre...
                          Pensou quando as crianças foram para o internato e ele ficou mais triste sem a movimentação delas, conversando, brigando, guardando e tirando as bicicletas. E as gaiolas dos meninos, dependuradas (os pregos ainda estavam lá em suas paredes), os canarinhos cantando, as brigas de galo que ele as assistia e se divertia...
                        Mas houve também tragédia! O dia que o rio se zangou e o aguaceiro subiu, seu dono se desesperou protegeu a família e apenas com o chapéu na mão subiu o morro deixando-o sozinho imerso no aguaceiro. Foi triste, muito triste... A criação berrando, as galinhas indo embora na correnteza e tudo se perdendo tão rápido.
                    Com muito trabalho seu dono cheio de esperança reconstruiu tudo e ele voltou a funcionar na lida do café, da torrefação e do arroz a pilar.
                    Muitos anos se passaram. Certo dia de desaviso depois de vários dias de muita chuva sua parede frontal não agüentou e veio ao chão. Seu dono Vermelhão ficou desesperado sem saber o que fazer. Sua companheira com cautela juntando boas idéias foi lhe acalmando e sugerindo que o consertassem dado o valor histórico que ela, só ela via nele. A Dama de Preto já havia morrido e só ela olhava para ele com olhar de carinho. Confesso que o velho Engenho chorou quando seu dono Vermelhão sentenciou que ia lhe derrubar. Quanta ingratidão! Ela protestou brava pela primeira vez. Ordenou ao marido que vendesse algumas cabeças de gado (porque gado nasce e cria todo dia) e um Engenho como aquele, nunca mais. Depois de derrubado como fazer outro igual? A sorte dele foi que o dono Vermelhão meio carcomido pela doença emocional, aceitou e com dificuldades chamou indicado por ela, um profissional entendido em madeiras para lhe reformar. Foi difícil, não havia recursos disponíveis. Assim o casarão permaneceu de pé. Ela administrou tudo dentro do que pode. O dono vermelhão caiu em depressão e nem da cama saía.
                    Pelo menos o Engenho suspirou aliviado. Estava fora do perigo da ameaça da demolição. Virou depósito de sacas e mais sacas de arroz de um comerciante avarento que não pagava um tostão pelo seu serviço.
                        Em sua frente havia uma frondosa mangueira (todos se beneficiavam da sua acolhedora sombra) que uma das filhas do seu primeiro dono havia plantado. Era manga baiana, fruto doce e saboroso. No seu galho mais forte o seu dono Vermelhão pendurou uma gangorra para a menina dele se balançar. Foi muito bom... Ela balançava e seus cabelinhos cacheados se assanhavam ao vento e era uma risarada de dar inveja. Mas a velha mangueira adoeceu e morreu apesar de todos os cuidados...
                        Acontece que as coisas mudam. Seu dono Vermelhão também morreu como o seu primeiro dono, o segundo, a Dama de Preto, a Anna, o Amerco, o Joaquim, o Bertolino e o Sebastião Luz.
                        A casa da família reformada e bonita ficou fechada. Ao lado o casarão ficou sozinho testemunhando tudo.
                        Então ele passou a ser da sua quarta dona, depois da morte do dono Vermelhão, inesperadamente. Agora a “manda chuva” é a menininha que há pouco balançava nos galhos da mangueira. Ela o via fechado e pensava em lhe dar um novo destino. Ele começou a ficar preocupado com as conversas que de todos ouvia. O que seria dele???
                         Um dia apareceu um bando de pedreiros armados de ferramentas. Encheram-no de material de construção e começaram a lhe modernizar. Ganhou portas e janelas novas e seguras. Ganhou um piso bonito, cozinha, iluminação, despensa, banheiros e até um varandão. Qual seria o seu novo destino???
                             Então veio a grande surpresa! Ficou bonito, com cara de “coroa” recauchutado. Eles pintaram as suas paredes e portas, abriram espaços e à noite apareceu um grupo de músicos que subiu no seu palco (que antes era o acento da máquina de beneficiar arroz) e começou a tocar muitas canções. Todos riam e cantavam. A nova dona parecia cansada, mas estava alegre e satisfeita, (era seu aniversário), realizada com o resultado do seu esforço. Com os convidados chegando foi uma noite de festa.
                          Calado ele via tudo isso. Começaram a inventar até nome novo para ele. Que absurdo!!! Isso ele não aceita não! Já tendo certidão de nascimento de quase cem anos e se chamando ENGENHO, com muita honra como mudar de nome? . Exigiu respeito! A companheira do seu dono Vermelhão, a única presente e viva, para contar a sua história também não aceita que mudem o seu nome “engenhoso” e bonito e tão antigo quanto ele.
                         Com uma coisa ele ficou feliz um pedacinho de dele, antigo e original ficou guardado em vidro dentro de uma moldura para mostrar o quanto era velho e também a marca da enchente que o inundou.
                          Vai se lembrar de sempre com saudades do seu dono Vermelhão e do seu irmão, o grandalhão do Zé Roberto, da Dama de Preto e de todos os netos, amigos e parentes que o amaram e que também com fidelidade serviu no seu ofício.
                         Agora é vida nova. Tem que se acostumar e pensar que os tempos mudam, as pessoas morrem, os velhos passam para outras mãos. Só espera que a nova patroinha, a menininha da balança o ame da mesma forma que a mãe dela, companheira do seu dono Vermelhão o ama e respeita sem interesses, somente pela beleza da sua história. Ele tinha que contar estas verdades, elas fazem parte de tempos que passaram, mas que estão presentes dentro dele, pulsando em seu coração, latejando em suas veias.
                       Confessa que chorou quando viu as andorinhas pintadas  enfeitando uma das suas paredes principais, trouxeram-lhe fortes lembranças da cantoria que as antigas e vivas faziam ao construir seus ninhos para berçário da “filhotada” que ele as abrigava com carinho até que depois voassem livres.
A modernidade foi vencedora não adianta viver de passado. Agora é enxugar as lágrimas, continuar a servir e esperar que continuem a lhe chamar de – ENGENHO - ah, isso ele exige!




VELHO ENGENHO



Casa de Festas e Eventos


                                                          
 A velha mangueira, a gangorra e a sede do Sítio Barra do Sapé, de Filhinha Magalhães e filhos.

                          Dizem que virou “casa de festa”. Protesta enfurecido. Chama-se ENGENHO até a morte e pronto! Quem tiver dúvida que procure a sua certidão de nascimento! A quem pertence??? Responde sem tropeçar: a todos que o amaram e que fizeram parte da sua história...